Perspectivas da Impressão 3D na ortopedia veterinária

Em entrevista para a NetVet, Dr. Rodrigo Rabello fala sobre sua experiência no uso de próteses geradas com impressoras 3D

Poucos conhecem as aplicações da impressão 3D na rotina de clínicas veterinárias, mas essa tecnologia tem trazido muitos benefícios, tanto para os animais, como para veterinários. Segundo a matéria publicada pela revista Veja em 2014, a impressão 3D foi criada nos anos 80 com objetivo de fabricar peças automobilísticas, e com a evolução dos equipamentos e softwares, o setor da saúde começou a utilizar essa tecnologia. O uso na Medicina Veterinária começou com a confecção de peças anatômicas e a modelagem de próteses.


Em uma entrevista com o Rodrigo Rabello, pude entender melhor sobre a impressão 3D, suas aplicações na área da medicina veterinária e as perspectivas sobre sua utilização no futuro. Rabello é médico veterinário especialista em clínica médica e cirúrgica em animais silvestres, assim como em manejo de fauna. Mestre em ciências veterinárias nas áreas de anestesiologia e cirurgia em animais silvestres pela Universidade Federal de Uberlândia, Rabello se tornou conhecido após o caso da jabota Fred ter sido tema de uma reportagem exibida no Fantástico pela Rede Globo em 2014.


NetVet - Como foi seu primeiro contato com a Impressão 3D e suas aplicações na medicina veterinária?


Rabello - Meu primeiro contato com a Impressão 3D foi com a jabota Fred. Ela chegou com uma perda completa do casco, em decorrência de uma exposição a um incêndio. A princípio trabalhamos para estabilizá-la clinicamente. Em seguida tivemos que encarar um desafio ainda maior, descobrir uma maneira de protegê-la. Justamente nessa época havíamos visto um caso nos Estados Unidos de uma tartaruga marinha, que recebeu uma pequena prótese feita em impressora 3D. Partindo disso, começamos a pesquisar, estudar e discutir o caso com outros profissionais de diferentes áreas. Definimos então um objetivo, desenvolver este projeto de prótese pela impressão 3D.


Encontramos algumas barreiras ao contatar os veterinários nos Estados Unidos, mas continuamos motivados e resolvemos procurar uma solução nossa. Começamos nós mesmos a criar os softwares necessários para criar o modelo digital em 3D, que seria então enviado para a impressão. Não me recordo como a mídia ficou sabendo e acabamos sendo procurados pela produção do Fantástico (Rede Globo). O programa foi ao ar e teve uma repercussão bem grande. A partir deste primeiro caso com a Fred, diversos outros casos apareceram e fomos assumindo todos eles, sempre buscando melhorar os resultados e baixar os custos.


NetVet - Notei que utilizou esta tecnologia em vários casos clínicos na área de silvestres. Você teve alguma oportunidade de usar a Impressão 3D na área de animais de companhia, mais especificamente cães e gatos?


Rabello - Tivemos a oportunidade de usar a tecnologia em diversos animais, como tucano, araras, papagaios, enfim, foram realmente muitos casos em animais silvestres. Na área de animais de companhia foram apenas dois casos. Em um deles nós fizemos um dente para um cão, e no outro, fizemos uma espécie de sapatilha, um "pézinho", para um cachorro que tinha um problema ortopédico.


NetVet - Você sabe de alguém que esteja utilizando a impressão 3D na área de pesquisa, em instituições de ensino ou hospitais escolas?


Rabello -
Sim, existem instituições de ensino e escolas que estão utilizando e aplicando essa tecnologia, assim como desenvolvendo trabalhos de pesquisa em impressão 3D. São principalmente instituições de ensino superior. A Universidade de Brasília - UnB, por exemplo, faz várias pesquisas neste ramo. Tenho visitado outras faculdades pelo Brasil, e vejo que o interesse por pesquisas nesta área tem aumentado bastante.


NetVet - Você acredita que veremos impressoras 3D na rotina de clínicas particulares no Brasil?


Rabello - Estou torcendo para que isso aconteça, e acredito realmente que as impressoras 3D possam auxiliar nas rotinas de clínicas pelo Brasil. Nosso trabalho inteiro, desde a Fred, foi trazer a impressão 3D para dentro da realidade da Medicina Veterinária, pois antes era algo muito caro.


Nós tínhamos casos em que era necessário trazer próteses dos Estados Unidos, onde uma peça pesando menos de 100 g custava 90 mil dólares, ou seja, totalmente fora da nossa realidade. O que fizemos com o nosso projeto foi implantar um software livre, uma impressora de baixo custo, buscando viabilizar a utilização desta tecnologia adequando aos custos. E posso dizer que conseguimos! Como exemplo de resultado, a prótese da jabota Fred de 2,226 kg custou R$ 136,00, preço de custo. Na minha opinião, o objetivo foi alcançado.


Acredito que no futuro as clínicas terão uma impressora 3D dividindo espaço com um aparelho de anestesia inalatória ou ultrassom. É uma tecnologia que certamente poderá auxiliar o médico veterinário em vários procedimentos.


Veja mais...


Exotic Life

Revista Veja - Medicina impressa: os avanços que a tecnologia 3D trouxe à saúde
Cícero Moraes - Quando a medicina veterinária e a impressão 3D se encontram.

G1 - Jabuti que recebeu casco novo após incêndio florestal se recupera no DF.

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