Baleias na Nova Zelândia

O papel dos veterinários no encalhe de baleias na Nova Zelândia

Na noite da última quinta-feira, 8 de janeiro de 2017, moradores e turistas de uma praia da Nova Zelândia ouviram os primeiros suspiros e choros. Em poucos minutos, centenas de baleias-piloto agonizavam encalhadas, levando tristeza e desespero aos veterinários e voluntários que se movimentavam para salvá-las.


A notícia se espalhou rapidamente na Internet. Fotos e vídeos foram publicados nos principais jornais do mundo todo. Veterinários e outras pessoas que sabem que os animais são seres sencientes, ao verem as imagens, percebem o desespero dos animais naquela situação.

Mas por que isso acontece? O que leva estes animais ao encalhe em massa?

A NetVet conversou com o especialista em cetáceos Milton Marcondes, pesquisador do Instituto Baleia Jubarte, para nos explicar as possíveis causas e falar um pouco da ação de veterinários que trabalham com mamíferos marinhos.

[NetVet] O que é exatamente um encalhe em massa de baleias e por que eles acontecem?

O encalhe em massa de baleias acontece quando várias baleias encalham na praia ao mesmo tempo. Isso acontece com espécies de baleias que formam grupo social como baleia-piloto, cachalote ou cabeça-de-melão. 

Existem várias teorias que explicam este fenômeno e que já foram comprovadas. Em situações onde vários animais estão doentes e portanto está ocorrendo uma epidemia no grupo, ou o grupo tem um animal líder e este animal está doente e desorientado, ele pode encalhar e todos os outros acabam seguindo-o e encalhando também.

Em outras situações, especialmente com golfinhos, onde estes animais estão fugindo de predadores, como as orcas por exemplo, eles nadam em direção à praia na tentativa de fugir da ação destes predadores, e acabam encalhando.

Há ainda situações particulares de alguns pontos do planeta onde o relevo do local, seja uma enseada ou uma baía, cria armadilhas naturais onde estes animais entram mas não conseguem sair.

[NetVet] Quais os motivos que fazem da Nova Zelândia um local de alta incidência destes encalhes?

Pesquisadores que trabalham com cetáceos na Nova Zelândia acreditam que são dois os motivos principais. O primeiro é a grande quantidade de baleias e golfinhos que vivem e se alimentam naquela região. O segundo é que a Nova Zelândia tem alguns locais como baías e enseadas, onde a profundidade vai sendo reduzida muito lentamente, e isso acaba comprometendo o eco de retorno do sonar que estes animais usam para se locomoverem.

Assim, seguem nadando como se estivessem indo para mar aberto, mas acabam se aproximando cada vez mais das águas mais rasas.

[NetVet] Quais as chances destes animais serem recolocados no mar em condições de saúde que não represente risco de morte.

Depende muito da causa do encalhe. Nos casos de encalhes por fuga de predadores, com uma ação rápida de pessoas ajudando os animais a retornarem, as chances de sobreviverem são grandes. Este inclusive foi o que aconteceu com golfinhos em Arraial do Cabo há poucos anos. Neste episódio, um grupo pequeno de golfinhos encalhou, foi filmado por pessoas no momento em que encalhavam, e estas mesmas pessoas ajudaram os animais a retornarem ao mar. 

Contudo, em casos onde os animais encalhados apresentam alguma patologia como uma encefalite ou um parasita no ouvido, mesmo que as pessoas consigam colocá-los de volta na água, eles irão nadar de volta para a praia. 

Outro fator importante é o ambiente. Aqui na nossa região, litoral do Nordeste, por exemplo, onde as temperaturas são altas, os animais sobrevivem muito pouco tempo fora da água. O aumento da temperatura interna destes animais acaba levando-os a óbito. Na Nova Zelândia, Argentina e outros locais de clima frio, estes animais conseguem sobreviver por um período mais longo. 

[NetVet] Qual é a importância do veterinário que trabalha nestas situações? Outra questão que considero muito importante para estes profissionais é como eles lidam com estas experiências. Imagino que neste caso do encalhe da semana passada, na Nova Zelândia, onde centenas de baleias morreram, os veterinários devem experimentar um frustração enorme.

Esta situação é na verdade o pesadelo de qualquer veterinário que trabalha com cetáceos. A ação tem que ser rápida na avaliação dos animais. O veterinário deve decidir quais animais tem mais condições de sobrevida, que serão aqueles em que os esforços para recolocação no mar serão concentrados. 

Uma metodologia muito utilizada, e bastante eficaz, é marcar os animais com fitas coloridas que indicam a condição de saúde. Fitas verdes são colocadas nos animais em boas condições, que se mostram responsivos, fitas amarelas identificam animais em condições intermediárias, começando apresentar problemas de pele como queimaduras ou outro problema mais sério, e as fitas vermelhas são usadas para identificar animais muito fracos e com poucas chances de sobrevida.

À medida que os animais são identificados, outras pessoas agem rapidamente para tentar recolocar os animais com maior chances de sobrevida primeiro. Este é o procedimento recomendado em casos como este da Nova Zelândia, onde mais de 400 baleias encalharam e os recursos para o resgate são limitados.

Uma situação ainda mais difícil é observada quando ocorre encalhe de baleias Cachalote (Physeter macrocephalus), pesando dezenas de toneladas. A movimentação destes animais só é possível com auxílio de rebocadores e maquinário pesado. A baleia-piloto pesa em média algumas centenas de quilos, ou seja, é perfeitamente possível manobrá-las com alguns voluntários e um pouco de esforço extra. 

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