Peixes sentem dor?

Diversos estudos defendem a capacidade dos vertebrados aquáticos de sentir dor

Classificam-se usualmente como peixes (classe Pisces, de Lineu), os vertebrados aquáticos com brânquias, membros quando presentes, na forma de nadadeiras, e geralmente recoberto por escamas. Porém, essa classificação é utilizada apenas por conveniência, não por unidade taxonômica, visto que os peixes não compõem um grupo monofilético, ou seja, eles não possuem um ancestral comum exclusivo. Tal fato, talvez, justifique a costumeira dúvida sobre as funcionalidades de seu sistema nervoso.

Muitos seres humanos, ainda são incapazes de enxergar os demais seres vivos, como seres capazes de pensar ou sentir. Talvez, por ignorância, ou simplesmente por conveniência. No campo da ciência, Mary Temple Grandin afirma que "as pesquisas demonstram que os peixes respondem a estímulos de dor".

Compreendidos em mais de 30.000 espécies aquáticas, maior do que qualquer outra espécie animal, sabemos que algumas espécies, como os salmões são capazes de reconhecer o local de onde partem e de regressar ao mesmo local após anos e após percorrerem milhares de km e indivíduos, que sob treinamento são capazes de aprender truques, comprovando que possuem capacidade inclusive de memória. Testes mostram que os peixes aprendem a evitar choques de dor e até evitar a perfuração dos lábios por anzóis.

A Convenção Europeia para a Proteção de Animais Mantidos para fins de Agricultura, explica que "a pele dos peixes é a sua primeira linha de defesa contra doenças e oferece proteção contra o meio ambiente. A pele dos peixes tem receptores que reagem ao toque e à dor".

A Dra. Lynne Sneddon, da Universidade de Liverpool (Inglaterra), PhD em psicologia e comportamento animal pela universidade de Glasgow, afirma que "estudos recentes têm demonstrado que os peixes possuem nociceptores, que são os receptores sensoriais responsáveis pelo envio de sinais elétricos para o cérebro que permitem reconhecer a dor após um estímulo com potencial de dano ao organismo".

Segundo o etólogo (especialista em comportamento animal) Jonathan Balcombe e autor do livro
What a Fish Knows: The Inner Lives of Our Underwater
, a falta de expressão facial dos peixes é o que nos leva a crer que eles não sentem dor. Quando estão presos a um anzol, os peixes são incapazes de emitir qualquer tipo de som, não gritam, apenas são capazes de fazer movimentos com a boca que pode evocar o sentimento de dor e terror.

A falta de expressão facial dos peixes é o que nos leva a crer que eles não sentem dor.

Sabemos que o uso da expressão facial, não pode ser usada como único guia para definir a capacidade de cada um sentir dor, uma vez que também sabemos que algumas das espécies aquáticas mais inteligentes, como golfinhos e baleias, são incapazes de se exprimir.

Balcombe afirma que, não existe qualquer dúvida sobre a capacidade dos peixes sentirem dor. Em um de seus estudos, descobriu-se que quando substâncias nocivas são aplicadas nos lábios de trutas, a frequência cardíaca das trutas aumenta e estas demoram mais tempo a voltar a alimentar-se. O modo de nadar altera-se com um balanço de um lado para o outro, esfregam os lábios no chocalho ou contra as paredes do tanque. A aplicação de um analgésico reduz significativamente o comportamento de dor.

Sneddon, diz que "profundas mudanças comportamentais e fisiológicas" apresentadas pela truta após exposição a substâncias nocivas são comparáveis àquelas observadas em mamíferos. "Encontramos 58 receptores na face e na cabeça da truta que responderam a pelo menos um estímulo", disse Sneddon. "Entre esses, 22 responderam a pressão mecânica e também foram estimulados quando aquecidos acima de 40 graus Celsius". "E 18 receptores também responderam a estímulos químicos", acrescentou.

Porém, para uma prova efetiva, era necessário demonstrar que o comportamento do peixe é afetado por uma experiência potencialmente dolorosa e demonstrar que essas mudanças comportamentais não seriam respostas reflexo. Os cientistas então injetaram veneno de abelha e ácido acético nos lábios de algumas das trutas. Outras receberam injeções com água salgada e algumas foram simplesmente manipuladas. Sneddon disse que trutas injetadas com veneno de abelha e ácido acético apresentaram movimento repetitivo, semelhante ao observado em mamíferos vertebrados. - "Observamos que as trutas injetadas com ácido também esfregaram seus lábios em pedregulhos e nas paredes do tanque. Essas não parecem ser respostas reflexo."

Bob Bermond, psicólogo biológico do departamento de psiconomia da Universidade de Amsterdã, escreve que os animais só podem sofrer dor como reflexo. E afirma em seu trabalho intitulado "The Myth of Animal Suffering", que o neocórtex altamente desenvolvido dos hemisférios cerebrais humanos é responsável por nossa habilidade de experimentar emoções e sensações tais como a dor. A existência desta característica no cérebro dos peixes seria um argumento para comprovar a habilidade dos peixes em experimentar dor. Entretanto, o cérebro dos peixes é constituído por hemisférios cerebrais muito primitivos onde falta o neocórtex.

Tais conceitos são rebatidos brilhantemente por Titus Rivas psicólogo e filósofo em The Denial of Consciousness in Non-Human Animals, onde este afirma que Bermond falha em não levar em conta para alguns tipos de funcionamento mental, nem há localização no cérebro. E que o raciocínio com base em analogias neuroanatômicas e não comportamentais é, na melhor das hipóteses, uma abordagem muito perigosa.


Saiba mais:

Bem-estar de peixes e a questão da senciência (PDF)

Fish Feel

Mercy for animals

Compartilhe este post