Leishmaniose Visceral Canina avança em diversas regiões

Especialista recomenda ênfase na prevenção. Eutanásia deixa de ser a principal medida

Recentemente a Leishmaniose tem ocupado as manchetes dos principais veículos de imprensa em vários estados do Brasil. Em uma pesquisa rápida no Google, encontramos dezenas de referências em vários sites importantes como BBC Brasil, Globo.com, Folha de São Paulo, Diário Catarinense, Zero Hora e muitos outros. Foram dezenas de matérias publicadas somente neste mês de outubro.

Sobre este assunto a NetVet conversou com o professor Marcio Batistela, médico veterinário especialista em patologia clínica, e atualmente professor da Universidade Anhembi Morumbi.

NetVet - Muito se fala da Leishmaniose atualmente. Ações de prefeituras estão sendo feitas para identificar casos positivos, tutores e veterinários são levados a conversar sobre a eutanásia e a indústria farmacêutica se movimenta para divulgar seus produtos, como a vacina e a Miltefosina. Qual sua opinião sobre a evolução da doença a partir deste contexto? Estamos caminhando para reduzir o número de casos?

Marcio Batistela - Certamente não. Veja, quando analisamos a evolução da doença nos últimos 20 anos, notamos que ela vem se alastrando cada vez mais. O principal questionamento que nós veterinários, e outros profissionais da área e Saúde Pública fazemos é: se as medidas de controle preconizadas tivessem algum efeito, já teríamos um controle da enfermidade. Vale lembrar que estas medidas sempre foram baseadas principalmente na eutanásia do cão. 

O que estamos vendo é justamente o contrário. Até mais ou menos meados de 2005, não havia relatos de casos na região sul. Hoje temos várias cidades das regiões Sul e Sudeste do Brasil convivendo com a doença. São Paulo é um exemplo muito bom disso. Em 1998 eu estava na Unesp de Araçatuba, cursando o quarto da faculdade, quando pela primeira vez entramos em contato com a Leishmaniose Visceral. São Paulo sempre conviveu com a Leishmaniose, mas não a visceral que é a forma mais grave da doença. A gente sempre conviveu com a Leishmaniose Tegumentar, ou Leishmaniose Cutânea, aquela que fica restrita à pele.  

Na minha avaliação, nestes quase 20 anos de evolução, a Leishmaniose vem se tornando endêmica em regiões onde a enfermidade não existia. Recentemente o interior de São Paulo teve vários casos relatados: Valinhos, Itupeva, Itu, Indaiatuba. Ou seja, ela demorou 19 anos para avançar de Araçatuba até muito próximo da cidade de São Paulo. 

E nós ainda temos casos no Guarujá. Duas crianças morreram no ano passado com quadros de Leishmaniose Visceral. É importante analisarmos o flebotomíneo, que é o inseto que transmite a leishmania. E muito difícil encontrarmos este vetor, mas quando ele chega numa região, ele acaba se instalando e, uma vez que tem um animal positivo, esse animal positivo é picado e o inseto vetor acaba transmitindo para outras pessoas e até mesmo para outros cães, fechando o ciclo. 

Em resumo, na minha avaliação, o controle preconizado pelo setor público nestes últimos anos tem se mostrado muito falho. 

NetVet - Que orientações você daria para veterinários que trabalham com pequenos animais?

Marcio Batistela - Uma das coisas que os veterinários precisam fazer é sempre considerar o diagnóstico de Leishmaniose, sendo região endêmica ou não. A maioria dos veterinários de regiões não endêmicas não tem esta preocupação. Como esta patologia causa vários sinais que são indicativos de outras doenças, frequentemente eles não consideram a Leishmaniose Visceral. Só pensam na LV quando o animal está muito doente, muito debilitado. 

É muito importante questionar o tutor do animal, saber se ele é de uma região endêmica, onde ele conseguiu o cão, ou seja, conhecer a procedência dos animais adotados ou mesmo comprados. É comum encontrarmos tutores que residem em regiões endêmicas como Cotia e Embu que procuraram atendimento veterinário na cidade de São Paulo.

Veterinários precisam instruir os tutores alertando-os para o fato que eles podem estar expostos à doença. É muito importante saber diagnosticar o quanto antes e reforçar a necessidade da prevenção. Ações como o uso de colar, pipeta e a vacinação são fundamentais. Acredito que conseguiremos uma maior eficácia no controle da enfermidade na medida em que os veterinários adotarem uma conduta com foco na prevenção e conscientização dos tutores.

Uma das grandes dificuldades no diagnóstico da Leishmaniose é o fato de que em torno de 60% dos cães e 80% dos gatos são assintomáticos, eles não apresentam sinais da doença. Este obstáculo só poderá ser vencido com o aumento da conscientização dos tutores.

NetVet - No passado recente, a eutanásia estava sendo, de certa maneira, associada à doença. Em contrapartida, o clínico está constantemente lidando com relação de afeto do homem com o seu animal de estimação. Neste contexto, qual seria a melhor abordagem ao tratar deste assunto com os tutores?

Marcio Batistela - Não é uma tarefa fácil, mas  informação é a melhor arma do veterinário. É de fundamental importância informar sobre a gravidade da doença para os membros de sua família. Falar sobre risco de contrair a doença em sua região, ou mesmo nas regiões onde costuma viajar com seus animais de estimação. Muitas pessoas que moram na cidade de São Paulo visitam constantemente o Guarujá, que é uma região endêmica.

Depois que o tutor fica ciente do perigo, o veterinário deve mostrar de que maneira podemos prevenir a enfermidade. São medidas que ele tem ao seu alcance, como o uso do inseticida, o colar como repelente no animal e a pipeta.

Sobre a vacina, é importante salientar que ela não funciona bem sozinha, ela tem que estar atrelada a um repelente ou inseticida.
Pessoas que residem em região endêmica podem impedir o contato do flebotomíneo usando telas bem finas nas janelas e portas da casa.

Outro ponto muitas vezes negligenciado é o cuidado com quintal da casa. Devemos explicar que o adubo em volta das árvores é um perigo, pois o mosquito se multiplica no material orgânico em putrefação, totalmente diferente do mosquito da dengue, que se multiplica em água parada.

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