Overview

Entendendo o Sistema Endocanabinoide

À medida que veterinários aprendem mais sobre o sistema endocanabinóide, entendem o potencial de compostos da cannabis


Apesar da controvérsia política e social relacionadas à planta Cannabis Sativa, a comunidade médica deve ter ciência da existência e da importância do sistema na qual as moléculas provenientes desta planta agem. Devido ao uso adulto desta planta de forma recreativa, juntamente com o preconceito institucionalizado envolvido, o uso da Cannabis foi proibido antes mesmo da descoberta do sistema fisiológico atuante, provocando os atrasos que vemos atualmente na propagação destes conhecimentos.
Descobertas recentes demonstram que as moléculas exógenas como o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), entre tantas outras, não passam de meros moduladores em um sistema pouquíssimo debatido, na qual não a ciência ainda não possui a perspectiva de sua magnitude.

Este sistema é denominado
Sistema Endocanabinoide (SEC) e está presente em diversos órgãos e tecidos como um mensageiro onipresente, com o objetivo principal de manter o corpo em equilíbrio, ou seja, em Homeostase. Até onde sabemos, ele existe em todas as espécies de mamíferos, e embora algumas peculiaridades ocorram, todas seguem alguns padrões fundamentais.

O SEC é, basicamente, um sistema endógeno de sinalização celular. Ele modula a comunicação intra e extracelular através de Receptores Canabinóides ou (REC) localizados na membrana celular de células específicas.  Esta modulação ocorre pela ligação de seus transmissores lipídicos nestes RECs, denominados Endocanabinoides ou (ECBs), sendo a terceira parte que compõem este sistema enzimas que realizam sua síntese ou degradação. 

 

Sendo um sistema regulatório, ele provê um mecanismo essencial para a homeostasia fisiológica, com a literatura descrevendo seu envolvimento em cinco principais atividades: Relaxar, Comer, Dormir, Esquecer e Proteger. Dentro destas atividades, o SEC está relacionado com a integração e modulação de funções como: apetite, digestão, metabolismo, padrões de sono, imunidade, inflamação, desenvolvimento embrionário, carcinogênese, plasticidade neurológica, neuro-proteção, apoptose, dor, e respostas emocionais.

O ECS age através de dois principais receptores clássicos, denominados: CB1 e CB2.

Assim como os receptores de dopamina e serotonina, ambos são classificados como receptores acoplados a proteína G. As mesmas agem como um segundo mensageiro intracelular, e devido a sua natureza estimulatória ou inibitória dependendo do receptor ativado e de sua proteína G acoplada, eles possuem a habilidade de agir como um "interruptor celular", aumentando ou diminuindo estímulos com o objetivo de manter o equilíbrio do sistema.


Os Receptores CB1 tem função neurotransmissora e neuromodulatória, estando presentes majoritariamente nos neurônios pré-sinápticos do Sistema Nervoso Central e Periférico, modulando a liberação de neurotransmissores pelos mesmos conforme a necessidade, através do "mecanismo de feedback retrógrado".
 
A literatura atual está mostrando que este é um dos receptores acoplados a proteína G mais abundantes no SNC em mamíferos.


Em pesquisas realizadas especificamente em cães, comprovou-se a presença de receptores CB1 em córtex cerebral e cerebelar, subículo e giro denteado do hipocampo, globo pálido e na substancia cinzenta da medula espinhal. Astrócitos possuíam receptores CB1 em todas as áreas examinadas. No SNP, estes receptores estão presentes em células satélite no gânglio da  raiz dorsal e em células de Schwann.

Além do Sistema Nervoso, receptores CB1 estão presentes no trato gastrointestinal, hepatócitos, adipócitos, células musculoesqueléticas, entre outros. Embora em quantidade muito menores e com funções menos esclarecidas, está cada vez mais claro o envolvimento fisiológico gigantesco do sistema endocanabinoide com o resto dos demais.

Os receptores CB2, por sua vez, estão localizados principalmente em células do sistema imune, com a maior densidade localizada em macrófagos, linfócitos T, linfócitos B, células NK, e monócitos, tendo função considerada imuno-modulatória. Estes receptores não são tão esclarecidos quanto os CB1, embora já se possua uma literatura gigantesca sobre os mesmos. Isto ocorre devido à sua presença em uma grande variedade de células que possuem diferentes funções reguladas pelos mesmos, além de sua variabilidade de efeitos sobre elas. Eles também podem ser encontrados em órgãos e tecidos como pulmões, pele, trato gastrointestinal, assim como em células de suporte do sistema nervoso como a micróglia, e em um pequeno número de neurônios.

Além dos 2 receptores clássicos, já foram descobertos mais de 6 outros receptores envolvidos em todas as funções citadas. Eles são conhecidos como Receptores Órfãos, e devido a se ligarem com moléculas não específicas e possuírem efeitos muitas vezes diferentes dos receptores clássicos, nenhum deles é denominado CB3.
Atualmente, porém, sua sinergia com o Sistema Endocanabinoide é clara e bem aceita atualmente.  Os mesmos serão descritos em mais detalhes em outros posts.